KWA CHE CAMISA: Pamoja Tunaweza, acreditemos!


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Júlio Ambale Mendes*

DE palma trouxe algumas reflexões. Muitas na verdade foram descobertas próprias de regresso à infância. As crianças de Palma e Mocímboa da Praia têm as mesmas características e vontades iguais às outras de outros cantos deste nosso país. A única diferença é que estão limitadas. A geração 70 e 80 sabe o que significa estar limitado nas mesmas circunstâncias. Nesta altura, as comunicações não estavam tão evoluídas, as autoridades detinham o controlo e conheciam o inimigo, a pobreza e o desligamento entre várias instituições era presente e ainda difícil de disfarçar. Ou seja, na guerra de desestabilização houve muito massacre, muita destruição, muito condicionamento ao normal desenvolvimento. Mas conhecíamos o inimigo, tínhamos uma considerável capacidade de avaliação e monitoramento das movimentações do inimigo. As causas nem tanto.

De Cabo Delgado, em pleno séc. XXI, as crianças vivem num estágio de doce arrancado à boca. São meninos que vivem num contexto em que absorvem toda a informação que lhes chega, tanto pelo rádio como pelas plataformas digitais. Estas crianças vivem um terror duplicado porque não compreendem o que está a acontecer. São diariamente bombardeados pela informação produzida internamente. Notícias de gente de boa-fé, consciente dos danos que uma notícia pode causar às pessoas naquelas circunstâncias, e inversamente, de outros interessados no caos, na desordem e na instabilidade. Gente sentada num café das grandes cidades, cuja agenda se desconhece, pelo menos a público.

Aquelas crianças de Cabo Delgado estão a viver um dilema muito diferente do vivido no passado. Quando são apresentados aqueles insurgentes em comícios públicos, alguns reconhecem aqueles que participaram nas incursões em que seus pais foram decapitados. Vivem este trauma no silêncio porque sabem que a voz pode lhes tirar a vida. Resta viver e conviver “calados” com os retornados e seus parentes, lutando para buscar respostas a uma chacina, cujas causas desconhecem.

Mas as crianças são mesmo crianças. A este grupo social, precisamos de fazer mais neste momento. Precisamos de fazer tudo para que acreditem que elas são mesmo crianças e que devem aproveitar a fase da vida que nunca regressa. Que a condição de permanente alerta lhes foi imposta por gente do mal, por isso é que convivem com os titios com armas a toda a hora à sua volta.

Pamoja Tunaweza é um pouco do que me refiro. Um programa que visa dar alento aos meninos de Palma, através da prática do desporto. Mas é uma gota no oceano para aquilo que é a dimensão dos danos sociais que o terrorismo criou nas mentes dos meninos de Cabo Delgado. O massivo apoio a programas de socialização podem acelerar o processo de reintegração das crianças e jovens nas suas comunidades, desfiguradas em face da destruição e das marcas de gente que foi e nunca mais voltará. Por fim, deve haver um apelo à consciência geral de que há uma geração que está em perigo de ver seus direitos coartados e seu futuro condicionado. A publicação e réplica de notícias e imagens sobre o terrorismo em Cabo Delgado também estão a ser consumidos pelos afectados, cuja a repercussão é completamente contrária ao que sentimos aqui. Lá existe dor, angústia, medo e desespero. Aqui são apenas textos e imagens que consumimos como memes. Nada mais. Pode haver sentimento, mas é solidário e na esquina seguinte nos esquecemos.

A responsabilidade futura das consequências do terrorismo em Cabo Delgado é de todos. Por isso sou daqueles que aconselha ao Governo o endurecimento de consequências daqueles que estão a brincar com o terrorismo em Cabo Delgado, seja através da publicação de notícias falsas, atrapalham as operações militares, incendeiam a instabilidade, actos que só devastam e criam confusão nas pessoas no terreno. Um apelo ao futuro daquelas crianças que vi em Palma e que representam a dor de outras em Cabo Delgado.

Watoto wanahitaji amani!!

*PhD em Educação

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