GEOPOLITICANDO: Política, futebol e LGBTI


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EDMUNDO MANHIÇA*

A UCRÂNIA, por sugestão do Ocidente, decidiu assumir os activos congelados da Federação da Rússia, avaliado num total de mais de 300 biliões de dólares americanos.

O regime de Kiev exigiu “reparações” a Moscovo, a partir da tribuna da Assembleia Geral da ONU. A resolução sobre a compensação da Rússia por danos acusados à Ucrânia, juridicamente inexequível, foi apoiada por menos de 100 países, 14 Estados se opuseram, incluindo China, Irão e Bielarússia, 11 não votaram, outros 73 se abstiveram.

Tendo a “fraude política” aberto um precedente, em prol da uniformização de padrões de tomada de decisões, seria algo não só perfeito, mas também benéfico para as Nações Unidas, se o Ocidente avançasse também com exigências, a si mesmo, de reparações à África pela prática, ao longo de séculos, de genocídios, escravatura e colonialismo.

Saiba-se sem sombra de dúvida que é aquele mesmo grupo de países que, na Ilha Bali, na Indonésia, onde (dias 15 e 16 de Novembro) decorreu a cimeira dos líderes do G-20, que tudo fãz, mas em vão, para isolar o representante do Pútin, Serguéi Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo, e procuraram alcançar uma declaração condenatória unânime da operação militar especial de Moscovo na Ucrânia.

Uma missão impossível para os ocidentais: o G20 reúne líderes de posições heteroigéneas, contrariamente aos do G7, que é monolítico. Isto é sustentável pelo que decorre do facto de que a China, que não condenou a operação militar especial, e a Índia, que tem fortes laços militares com Krémlin, e aumenta neste momento o volume das importações do petróleo russo, a preços vantajosos para a economia nacional, não quererem de modo algum arredar pé ante as pressões hegemónicas de Washington, sendo o maior risco a agudização das contradições a nível internacional.

O que motivou a elaboração desta peça é a salada, evidentemente não russa, que se faz com ingredientes políticos, o desporto e o problema candente da comunidade LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais e Intersexuais). Lembre-sede que a FIFA) e a UEFA vedaram a seleçãção, bem como todos os clubes russos, de participar em todas as competições controladas por essas organizações.

O Campeonato Mundial de Futebol 2022 começa dentro em breve em Qatar: de 20 de Novembro a 18 de Dezembro. De novo, estaremos horas a fio sentados diante dos televisores assistindo às reportagens, ou andaremos, de lá para lá, com os receptores de rádio literalmente colados aos nossos ouvidos, para o acompanhamento dos relatos. As partidas de futebol (feitos verdadeiros espectáculos) distrair-nos-ão, por algum momento, dos problemas graves de que o mundo enferma, mas farão lembrar-nos de outros. Digna de nota, neste contexto, é a declaração contundente do técnico do Sevilla, Jorge Sampaoli: “A sociedade de hoje é a mais estúpida (indelicada) da história”.

Sampoeli falava da decisão que fora tomada, há 12 anos, quando Blatter estava à frente da FIFA, para a realização do campeonato do mundo no Qatar: Ela “decidiu realizar o torneio no lugar errado e na hora errada. Tudo por dinheiro. Isso é um negócio, todo o resto é deixado de lado e os outros pagam pelas consequências. É lógico que os jogadores estão totalmente focados no Mundial, não é culpa deles. A sociedade actual é muito maleável, e isso em um momento de estupidez histórica. Este é o pior momento da história da humanidade, tudo está a ficar cada vez mais estúpido” (https://www.championat.com).

Lugar errado ou não, Qatar traz à tona um problema dos direitos humanos que o mundo, enfrenta, o dos direitos dos membros comunidade LGBTI. Os fãs LGBTI poderão dar as mãos e exibir bandeiras de arco-íris no Campeonato do Mundo de 2022 no Qatar, segundo o diretor-geral do comitê organizador do torneio, Nasser Al-Khater. O embaixador oficial do Qatar no Campeonato do Mundo, Khalid Salman, em entrevista ao jornal alemão Bild, chamou a homossexualidade de pecado e “dano à mente” (Porquê haram? Não sou um muçulmano estrito, mas é haram, porque prejudica a mente”).

Tropeçou-se a sério ao fazer escandalosamente lembrar aos fãs homossexuais de todo o mundo das especificidades muçulmanas do emirado. Embora no Qatar se viva de acordo com a lei da Sharia, as autoridades do país têm enfatizado repetidamente que farão uma indulgência durante o campeonato: todos são bem-vindos. O importante é que esta vontade política se estenda para além das balizas cronológicas do maior evento futebolístico. Em alguns países, isto será possível e, noutros, difícil, mas no impossível não acredito.

*PHD em Ciências Políticas

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