Cá da terra

PERGUNTARAM-ME, algures, sobre a avaliação que fazia de 2022. Tentei olhar para trás e não consegui vislumbrar, sinceramente, algo de significativo, senão o facto deste ter passado sorrateiro, sem luz e sem glória.

Com ele apagou-se também um pedaço do que construímos e levamos do século passado para o presente. Levou-nos o Pelé e também o Papa Bento XVI. Não há pior saída que esta. 2022 deixa, por isso, feridas, marcas profundas que vão perdurar.

Quando ingressámos no ensino secundário ( na altura a porta era a 5ª classe, não sei se algum dia voltará a ser assim) vivíamos um misto de sentimentos. Vangloriava-mo-nos por estar ali, a inaugurar uma era em que o ensino estava aberto para todos, bastava o empenho e dedicação. A par da escola, a Igreja, a catequese, só depois é que corríamos atrás da bola. Todos queríamos ser o Rei- o Pelé.

De todos os meus companheiros de então, seguramente ninguém chegou a pisar sequer a sua silhueta, a estar sobre a sua aura, mas fica o legado de ao menos seguirmos referências, termos um ídolo que não foi beliscado na sua estatura…até chegar o 2022.

Doravante, vamos viver um novo ciclo, sem o nosso ídolo, mas certamente com os registos que vão durar eternamente como a marca da perseverança, daquele que quebrou barreiras e venceu.

Na Igreja aprendemos sobre muitas coisas, porque também se assumia como um lugar de ensino por excelência. A lógica seguida era que a catequese seria fundamental para a preservação da identidade, da fé e da cultura cristã. Além dos pais, a igreja responsabilizou-se também por catequizar as crianças para que estas tirassem as vantagens da vida cristã.

A Igreja deixa ensinamentos que devemos levar por toda a vida entre os quais o amor ao próximo, o respeito pelo próximo, pela hierarquia, o perdão, o servir e o sentido de missão. São princípios difíceis de praticá-los no nosso dia-a-dia, mas segui-los, dá um sentido ético à nossa vida.

Joseph Aloisius Ratzinger, o Papa emérito Bento XVI, partiu como um bom servidor, com sentido de missão cumprida. Com a sua morte, a nossa geração terá visto partir dois Papas. Como também viu partir Maradona e agora Pelé. Algo absolutamente inimaginável.

Pois, tudo ou, mais de metade do que vivemos, tem a mesma marca, que não se resume apenas ao que terá sido 2022.

Nossa vida é uma autêntica progressão infindável. O que era ontem não é mais hoje e provavelmente não será amanhã. Nos últimos anos esta progressão assume uma ordem estonteante. A luta é por agregar cada vez mais valor. Se verdade ou mentira… Não sei dizer, tudo isto teve um contributo valioso e humilde desta geração.

Tão rápido chegámos a 2023. E agora?

Todo o mundo está esperançado que o gás de 2022 dê alguma coisa, mas eventualmente, há uma franja muito grande de pessoas que não estão a dar gás suficiente para produzir alguma coisa. Assim, o efeito multiplicador desejado pode demorar a chegar e começarem, rapidamente, a desenhar-se as marcas da frustração. Aqui é que está a diferença entre o de ontem e o de hoje.

Por isso mesmo, 2023 terá que ter arte na gestão de expectativas. Ser feliz é o que queremos para nós próprios, seja lá o que for que isso signifique, é o que queremos para os nossos filhos, sem especificar que o ser feliz para nós pode ter um significado diferente para eles.

Encarar os problemas e os desafios e ter a capacidade de lidar com eles, ser grato pelo que temos, aprender a usufruir das coisas simples da vida e… das grandes coisas também! já é um passo. De qualquer maneira, que 2023 marque então esse passo no sentido da felicidade.  

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