A casa misteriosa – Jornal Notícias


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Leonel Abranches

É DE uma cor imperceptível. Entre o vermelho, o castanho sujo e cinzento. Mesmo à beira do mar. Os traços arquitetónicos e o formato de castelo lembram o enredo arrepiante de um filme de terror de quinta categoria. Não se vê vivalma cirandando pelo quintal, mas sabe-se que entra e sai gente a horas suspeitas, ou durante as frias madrugadas, ou mesmo nas sombras da escuridão da noite. De vez em quando uma ou duas vozes ecoam no espectro da noite. Diz-se que ali só habitam meninas de tenra idade. Um dia desses, no percurso da ginástica matinal, e inebriado pela curiosidade, tentei espreitar pelo quintal dentro. Não perscrutei uma alma viva, ainda que ouvisse vozes ecoando como se estivessem num túnel. Empertiguei mais ainda o pescoço e virei a cabeça para a esquerda e depois para a direita. Nada. O quintal estava superiormente limpo. As janelas abertas dos três andares aguçaram ainda mais a minha curiosidade. Percebi que junto às paredes estavam encostadas beliches. Várias beliches. Olhei para um monte de areia e decidi pendurar-me ali, quem sabe melhorava o meu raio de visão. Traçava ainda estratégias para subir o murmuché para espreitar a misteriosa casa quando alguém, vindo do nada, tocou o meu ombro esquerdo. Engoli em seco e nervosamente olhei para o homem. Devia ter não menos de setenta anos, literalmente ancião. Estava sem camisa e uns calções de caqui que há muito deixaram de cumprir a sua missão. A face carcomida pelos efeitos da pobreza e o tronco com firmeza férrea de um personnal trainer. Trazia na mão esquerda um saco onde saltitavam uns quantos peixinhos caídos na malha de pesca. Deduzi logo que fosse pescador. A mão direita, ainda apoiada no meu ombro esquerdo, denunciava uma vida áspera. Dedos longos e grossos, unhas pretas e sujas incrustadas na carne já não tinham qualquer utilidade estética. Eram apenas unhas. O ancião, com uma calma faraónica, olhou para os lados, como se quisesse me contar um segredo horrível, pousou o saco onde estavam aprisionados os peixinhos saltitantes e com uma voz trovejante aconselhou-me:

Mpfana desça daí, essa casa é complicada. Tem gente, mas não tem. Não sei se são pessoas ou espíritos…”

Senti um calafrio na espinha, a pele ficou seca e arrepios tomaram conta de mim…

– Ando por aqui há mais de vinte anos e nunca vi alguém pelo quintal. Todos os dias à noite é acesa apenas uma única luz nesse casarão todo.” – continuou o velho, com uma dose de drama à mistura, enquanto voltava a pousar no ombro o saco com os peixinhos prisioneiros que, entretanto, já saltitavam menos.

“- Mas…mais velho, ouvi dizer que entram pessoas aqui à noite e que…”

“- É verdade…” – interrompeu o velhote.

“ – Entram uns gajos à noite sim…às vezes de madrugada. Gajos de barba grande…”

“- Nunca procurou saber quem são?” ripostei aguçando ainda mais a minha curiosidade.

“- Yhuuu!…” – encolheu os ombros afagando o cabelo farto e despenteado.

“- Esses não são normais….há aí qualquer coisas que não bate….já informamos a estrutura do bairro, mas nhento. Não há coragem para enfrentar os habitantes desta casa. ”

Estávamos nessa lenga lenga sobre a casa misteriosa quando um grito lancinante se fez ouvir. Um grito humano, mas metálico, rasgou os céus. Estremeci. Olhei para os lados de onde supostamente vinha o grito. Outro grito cortou os céus, este mais sinistro ainda. Laminado! Parecia que alguém perdia a alma. Virei-me para o velhote. Já ali não estava. Ao longe um enrolado de poeira indicava que o velho estava a milhas e à velocidade supersónica. O saco com os peixinhos prisioneiros jazia ali inerte e abandonado. Sorrateiramente também pus-me ao fresco, guinei pela primeira esquina à esquerda e desatei numa correria desenfreada. Só parei dois ou três quilómetros depois. Com o coração aos pulos e já quase saindo pela boca, sentei-me num enorme pedregulho respirando com enormes dificuldades. Um tipo por quem supostamente passei por ele na fuga olímpica olhou para mim incrédulo e atirou:

“- Mano, estás em boa forma yah…”

Sem sequer olhar para ele e ainda tentando reverter a saída do coração pela boca, respondi sarcasticamente:

“- Vatalixar…”        

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